Vendas

Farmácia no iFood pela Febrafar: a conta da margem antes do primeiro pedido

A parceria Febrafar e iFood abre o delivery para mais de 20 mil farmácias associadas. Veja o que entra no custo de cada entrega e a conta a fazer antes de aceitar a taxa.

Equipe ContabilfarmaPublicado em 15 de outubro de 20264 min de leitura

A Febrafar fechou uma parceria com o iFood para levar as farmácias das suas redes associadas para dentro do aplicativo. A notícia saiu em 30/09/2026 e envolve mais de 20 mil farmácias. Para o dono, a pergunta que importa não é se vai entrar mais pedido, e sim quanto cada pedido vai deixar no caixa depois da comissão, do entregador e da embalagem.

O que a parceria oferece

Segundo o Panorama Farmacêutico e a Abradilan, que reproduziu a informação da própria Febrafar, a parceria abre o iFood como canal de vendas para as farmácias ligadas às redes associadas. O iFood mantém uma página de cadastro, “iFood + Febrafar”, com a oferta “Exclusivo Febrafar • Taxa reduzida”.

O valor dessa taxa não foi divulgado: a página não traz percentual, e as matérias do setor também não. A condição vale para a farmácia associada a uma rede da Febrafar. A independente que não é associada não tem essa oferta.

A própria Febrafar avisa: pedido não é lucro

A diretora comercial da Febrafar, Karen Corridoni, disse que a loja passa a alcançar “um cliente que muitas vezes já estava acostumado com a plataforma”. E completou: “não basta a loja vender no iFood. Ela precisa vender e olhar a margem.”

A orientação da federação é tratar o delivery como um canal com meta e indicadores próprios: preço, margem de contribuição, mix, ticket médio, volume de pedidos e custo da operação. Margem de contribuição é o que sobra de cada venda depois de tirar o custo do produto e os custos da própria venda, como comissão, taxa do cartão e entrega. É ela que mostra se o pedido do aplicativo paga a conta.

O que os números de ticket mostram

Segundo levantamento da Zetti Brasil, empresa de sistema de gestão, feito com mais de 1.600 operações que usam a sua plataforma, o pedido com entrega teve ticket médio de R$ 88,54 no 1º semestre de 2026, 26,4% acima da média geral, de R$ 70,04. Na comparação com o 1º semestre de 2025, os pedidos com entrega cresceram 11,8% e o faturamento das entregas, 13,2%. As vendas por aplicativos, sites e marketplaces subiram 14,7%, com ticket médio de R$ 82,37.

Ticket maior ajuda a diluir frete e comissão. Mas são dados de farmácias clientes da Zetti, divulgados pela imprensa, e não medem o lucro do canal. O ticket da sua loja pode ser bem diferente.

Onde a margem do delivery some

O Grupo Symbol, rede associativa e fornecedor de tecnologia para farmácias, lista o que entra no custo de cada entrega: entregador, combustível, embalagem, taxa de plataforma, comissão de marketplace e tempo da equipe. Na avaliação da empresa, “se o ticket médio do delivery é baixo e o frete é subsidiado, a margem líquida por pedido pode se tornar marginal ou negativa”.

A recomendação do Symbol é ter valor mínimo de pedido, frete escalonado e foco em categorias de maior margem. É o mesmo alerta da Febrafar por outro caminho: o volume de pedidos pode crescer enquanto o dinheiro que sobra encolhe.

A regra sanitária ainda vai ser detalhada

A Lei 15.357/2026, publicada no Diário Oficial em 23/03/2026, permite que farmácias e drogarias licenciadas contratem plataformas digitais “para fins de logística e entrega ao consumidor”, desde que cumpram integralmente a regulamentação sanitária. A plataforma entra como logística, e a responsabilidade pela dispensação continua com a farmácia.

Em comunicado de 10/08/2026, a Anvisa afirmou que a aplicação desse trecho da lei depende de uma regulamentação que a agência ainda vai editar, e que a revogação das proibições às plataformas não dispensa ninguém de cumprir a norma sanitária. Num levantamento feito em 13/10/2026, não apareceu regulamentação nova publicada desde o comunicado. Quem montar estrutura para o delivery deve deixar espaço para ajustar a operação quando a regra sair.

O que fazer antes de entrar

  1. Peça a proposta por escrito: percentual da comissão, requisitos, prazo da oferta e regras de cancelamento. “Taxa reduzida” não é número.
  2. Faça a conta do pedido médio: margem do produto, menos comissão do aplicativo, menos entregador, menos embalagem. Se o que sobra não paga a operação, o pedido não vale a pena.
  3. Defina um valor mínimo de pedido e um frete escalonado antes de oferecer frete grátis.
  4. Monte o mix do aplicativo com as categorias de maior margem, em vez de subir o catálogo inteiro.
  5. Acompanhe o delivery como canal separado: ticket médio, volume de pedidos e margem de contribuição, todo mês.
  6. Fale com o responsável técnico e com a contabilidade antes de começar, porque a responsabilidade sanitária continua sendo da farmácia.

O aplicativo traz o cliente que já compra por delivery. Se esse cliente vai deixar lucro, quem diz é a conta feita antes do primeiro pedido.