Gestão da farmácia
Remédio vencido e gôndola vazia: as duas perdas que saem do estoque da farmácia
Segundo a Abrappe, quase 8 de cada 10 reais de quebra em farmácias vêm da validade, e a ruptura passou de 11%. Veja como cruzar validade e giro antes de comprar.
A caixa vencida que vai para o descarte já foi paga à distribuidora. O cliente que sai sem o remédio porque ele não estava na gôndola leva a venda para outro lugar. São duas perdas diferentes, e uma pesquisa do setor com dados de 2025 mostra que a mesma farmácia costuma ter as duas ao mesmo tempo.
Quase 8 de cada 10 reais de quebra vêm da validade
A Pesquisa Abrappe, da Associação Brasileira de Prevenção de Perdas com a KPMG, tem uma edição com dados de 2025. Segundo o presidente da Abrappe, 78,98% das quebras operacionais registradas em farmácias e drogarias estão ligadas à validade dos produtos.
Quebra operacional é o produto que se perde dentro da operação, sem virar venda. Na farmácia, na maior parte das vezes, é o que venceu na prateleira ou no estoque. É dinheiro que saiu do caixa para pagar a compra e nunca voltou.
Ainda segundo a Abrappe, a perda total do setor farmacêutico foi de 1,24% do faturamento em 2025 (1,25% em 2024), abaixo da média do varejo, de 1,65%. As quebras operacionais respondem por 0,75 ponto percentual desse total. Para ter uma ideia, numa farmácia que fatura R$ 200 mil por mês, 1,24% seria cerca de R$ 2.480 por mês. O exemplo é nosso, aplicando a média da pesquisa, que reúne empresas participantes, em geral redes maiores. A sua perda pode ser maior ou menor.
A mesma loja perde pelo que falta
A pesquisa também mediu a ruptura, que é a falta do produto quando o cliente procura: 11,17% nas farmácias. Ela se divide em dois tipos:
- Ruptura comercial (7,27%): o produto não foi comprado ou não foi entregue.
- Ruptura operacional (3,90%): o produto está no estoque, mas não está na gôndola.
Somada ao vencido, a ruptura mostra que o problema não é só “estoque alto” ou “estoque baixo”. É comprar o item errado na quantidade errada: sobra o que não gira e falta o que vende.
O vencimento começa na compra
O presidente da Abrappe, Carlos Eduardo Santos, aponta como causas a compra acima da demanda real, o erro de previsão, o excesso de cobertura, o baixo giro, a falta de controle de lote e validade e o erro de rotação. “Condições comerciais atrativas podem se transformar em prejuízo se o volume adquirido ultrapassar a capacidade de venda dentro do prazo de validade”, afirma.
Em outras palavras: o desconto da distribuidora só vale se a farmácia vender tudo antes de vencer. Se sobrar, o ganho da negociação vira perda no descarte.
A data sozinha não diz o risco
A Abrappe dá um exemplo. Um produto que vence em seis meses, com estoque para 30 dias, tem risco baixo. Outro que vence nos mesmos seis meses, mas com estoque para dez meses de venda, vai sobrar.
Por isso a recomendação é cruzar quatro informações: data de vencimento, quantidade em estoque, velocidade de venda e cobertura. E acompanhar o estoque em risco de vencer, não só o que já venceu. Isso dá tempo de agir: bloquear nova compra, expor melhor, transferir entre lojas ou negociar devolução, quando o contrato com o fornecedor prevê.
O que a Anvisa já exige
Além da perda no caixa, produto vencido na área de venda é risco sanitário. A RDC 44/2009 da Anvisa, que trata das Boas Práticas Farmacêuticas, determina que:
- a política da farmácia para produtos com validade próxima do vencimento esteja clara para todos os funcionários e descrita no Manual de Boas Práticas Farmacêuticas;
- os produtos vencidos sejam separados, identificados e não sejam vendidos;
- os procedimentos da farmácia tratem do destino dos vencidos e dos que estão perto de vencer.
Ter esse procedimento por escrito é exigência da norma e organiza a rotina de validade da equipe.
O que fazer
- Antes de comprar, compare a quantidade com o giro: quanto a loja vende desse item dentro da validade do lote oferecido?
- Confira lote e validade no recebimento, não só a quantidade e o preço da nota.
- Monte a lista do estoque em risco de vencer e revise com a equipe em data fixa.
- Leve para a gôndola o que está no estoque, para não perder venda por ruptura operacional.
- Atualize no Manual de Boas Práticas a política para produtos perto do vencimento e o destino dos vencidos.
A perda por validade e a venda perdida por falta têm a mesma origem: a decisão de compra. É nela que a farmácia protege o caixa.
